Instituto Ida: “Abordagem centrada na pessoa tem grande relevância para nós”

Ida Institute

Fundado em 2007, na Dinamarca, o Instituto Ida celebrou 10 anos de existência no dia 1º de setembro. Sem fins lucrativos, o instituto trabalha com profissionais do mundo inteiro para desenvolver métodos e instrumentos de aconselhamento baseados na abordagem centrada na pessoa, visando o aprimoramento da qualidade do cuidado em saúde auditiva. Em 2018, o Instituto Ida pretende divulgar seu primeiro capítulo local no Brasil. O empreendimento é encabeçado por Deborah Ferrari, Professora Associada do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) – USP, e membro do Conselho Consultivo do Instituto Ida. A seguir, os esclarecimentos de Deborah Ferrari sobre a pertinência da abordagem centrada na pessoa para o fonoaudiólogo brasileiro.

Audiology Infos Brasil: Como e por que você chegou a participar desse instituto dinamarquês?

Deborah Ferrari: Meu primeiro contato com o Instituto Ida ocorreu em 2009, quando participei do seminário sobre motivação e engajamento do paciente. Tive uma identificação muito grande com a missão do instituto que, resumidamente, envolve o trabalho com profissionais da área da audiologia para desenvolver e integrar o cuidado centrado na pessoa na reabilitação auditiva. Hoje em dia, sobretudo na área de amplificação sonora, o foco é o produto, o dispositivo. O Ida trabalha para devolver o foco à pessoa com deficiência auditiva e a relação colaborativa entre profissional e paciente. Também me identifiquei com os processos do instituto para o desenvolvimento de instrumentos e conteúdo educacional. Hoje faço parte do conselho consultivo do Ida, ao lado de pesquisadores e clínicos por quem tenho grande admiração. Aprendo todos os dias com este grupo. Esta participação vem sendo uma das experiências mais transformadoras da minha atuação profissional.

Audiology Infos Brasil: Na sua opinião, os materiais em inglês são acessíveis e úteis para o profissional brasileiro?

Deborah Ferrari: Todo o conteúdo produzido pelo instituto, que tem como foco a abordagem centrada na pessoa, é de extrema relevância para os profissionais brasileiros. Embora o Ida lide com a temática da deficiência auditiva, todas as questões discutidas são aplicáveis também para outras áreas da fonoaudiologia. Infelizmente, até o presente momento, a maioria dos materiais está disponível apenas na língua inglesa, o que restringe o acesso para os falantes desta língua. Entretanto, alguns deles, como as ferramentas motivacionais e a ferramenta "Meu Mundo", foram traduzidos para o português brasileiro, com adaptações para nossa população. Também estamos trabalhando para adaptar o Curso online "Motivando seus pacientes" disponível no “Ida Learning Hall”, o ambiente virtual de aprendizagem do Ida Institute. Estas atividades foram atreladas a projetos de pesquisa e atividades de extensão desenvolvidos na FOB USP. Entretanto, convidamos outras pessoas a participar deste esforço.

Audiology Infos Brasil: O Instituto Ida está no processo de organização do seu primeiro capítulo local, e será no Brasil. Quais os motivos e os objetivos dessa iniciativa?

Deborah Ferrari: O capítulo brasileiro ainda está sendo estruturado e estamos trabalhando na celebração de um convênio – esperamos que em 2018 ele possa ser lançado. Algumas atividades podem ser realizadas de maneira mais efetiva em nível local. Uma organização local está mais ciente e sensível às necessidades e características particulares de um determinado país ou cultura. A adaptação das ferramentas do Instituto para o português brasileiro será um dos objetivos, entretanto, não vamos parar por aí. Este capítulo brasileiro contribuirá para a disseminação da missão do instituto no país, aumentar o número de membros brasileiros e preparar indivíduos, em nível local, para advogar em função da inclusão da abordagem centrada na pessoa no processo de reabilitação auditiva.

Audiology Infos Brasil: Existe hoje um debate sobre a comercialização de aparelhos auditivos “over-the-counter”, ou seja, sem que haja intermediação de um profissional. A abordagem centrada no paciente seria uma antítese disso?

Deborah Ferrari: Em toda a área da saúde, não só na audiologia, os pacientes estão se tornando “consumidores” e demandam serviços mais convenientes, transparentes, acessíveis. Isto, dentre outras tendências, faz com que surjam novos modelos de serviços direto ao consumidor, como é o caso dos dispositivos "over-the-counter". Podem ser levantados argumentos a favor ou contra este modelo, mas o fato é que esta transformação já está em curso.

Ao mesmo tempo, estes indivíduos querem também um serviço personalizado, ter suas necessidades consideradas, ou seja, querem ser empoderados e fazer parte do processo. Problemas crônicos de saúde, como é o caso da deficiência auditiva neurossensorial, exigem do indivíduo uma mudança de comportamento. Como profissionais da reabilitação temos que aprimorar nossos processos para auxiliarmos as pessoas neste processo de mudança. Uma abordagem exclusivamente biomédica, de prescrição de tratamento, frequentemente fracassa. É aí que entra a abordagem centrada na pessoa.

Por meio da escuta profissional diferenciada, dentre outras habilidades que podem ser aprendidas, o fonoaudiólogo elicia do indivíduo suas reais preferências, necessidades e valores pessoais. Esta perspectiva do paciente é levada em consideração na determinação dos objetivos e estratégias do tratamento – o processo de decisão é compartilhado. Dizemos que o profissional deixa de fazer algo para o paciente, ele faz algo com o paciente. O envolvimento e apoio também se estende à família, cuidadores, enfim, os principais “parceiros de comunicação” do paciente.

Em resumo, na abordagem centrada na pessoa, como diz o nome, o foco é na pessoa e no processo e não mais no produto. Isto é o que agrega valor e vai diferenciar o cuidado fornecido pelo fonoaudiólogo de outros modelos de serviço. Uma frase utilizada pelo Instituto Ida resume isto muito bem: "ajudar as pessoas a ouvir é aprender a escutar".

Deborah Ferrari, Professora Associada do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) – USP, e membro do Conselho Consultivo do Instituto Ida (foto: FOB/USP).