Aconselhamento para pacientes com zumbido: por quê e como?

Um dos pontos centrais com o paciente que apresenta zumbido é sua capacidade – ou dificuldade – de habituação. Essa depende da maneira como o indivíduo relaciona o sintoma a algo inócuo ou, ao contrário, prejudicial. Apesar de haver casos curáveis, muitos pacientes ainda devem lidar com a permanência do zumbido. Nessa perspectiva, o aconselhamento é primordial, seja ele realizado como complemento de algum tratamento ou como principal abordagem. Apresentamos, em seguida, alguns dos temas a serem tratados durante as sessões de aconselhamento.

Há cerca de quase três décadas já se considera que a percepção persistente e o incômodo causado pelo zumbido não são resultado direto e único da geração do zumbido na via auditiva periférica e/ou central, mas que são decorrentes da interação dinâmica entre os centros auditivos e os não-auditivos do sistema nervoso central (1-4).

O fator diferenciador entre duas pessoas com zumbido, com reações diferentes, em que uma o ignora completamente e a outra tem um desconforto significativo com ele, é a possibilidade (ou falta dela) que o indivíduo tem de se habituar ao sintoma. Habituação é uma forma simples de aprendizado na qual um indivíduo diminui sua resposta frente a um estímulo repetitivo e neutro, podendo chegar a não percebê-lo (5). A habituação ocorre unicamente se o estímulo for neutro, ou seja, livre de associações a estados emocionais negativos. Assim sendo, se uma pessoa estabelece uma associação entre situações desagradáveis ou de perigo à percepção do zumbido, a habituação não acontece. Ao contrário, o zumbido passa a ter prioridade para ser processado e percebido, o que promove a persistência do zumbido e o aumento do incômodo; o que por sua vez, reforça a ativação dos centros de percepção. Em outras palavras, a maneira como os indivíduos relacionam o zumbido a sensações positivas ou negativas, a situações inofensivas ou perigosas, determina os sentimentos de indiferença, incômodo, ou até pânico, que podem acompanhar a percepção do zumbido.

Facilitar a habituação

que o zumbido não é facilmente curado e que a maioria dos pacientes precisa lidar com sua presença, o aconselhamento tem importância fundamental para facilitar a habituação do zumbido, seja como abordagem principal ou como coadjuvante de amplificação sonora, terapia de mascaramento, tratamentos medicamentosos e/ou outros(6-8).

Idealmente, o aconselhamento é feito após uma avaliação completa do paciente (anamnese completa, dados médicos e audiológicos, questionários de handicap), para que o profissional possa abordar especificamente os pontos relevantes para o caso daquele paciente.

Para que o aconselhamento seja realmente efetivo, o terapeuta precisa dominar conhecimentos técnicos e científicos, mas, mais importante do que isto, deve saber realmente escutar o que o paciente lhe conta, com autenticidade, gentileza, aceitação incondicional e congruência (9).

Os pontos principais que devem fazer parte do aconselhamento estão dispostos no Quadro 1. O quadro não esgota os temas que podem ser abordados nas sessões de aconselhamento, e eles não precisam, necessariamente, ser apresentados na mesma ordem.

Quadro 1. Temas gerais para o aconselhamento de pacientes com zumbido

A periodicidade das sessões de aconselhamento é variável: a cada um, três ou seis meses, dependendo da necessidade do paciente. Nos acompanhamentos acontecem:

- estabelecimento e manutenção de uma relação significativa entre paciente e terapeuta

- reavaliação do paciente para que as estratégias terapêuticas sejam reformuladas, se necessário, e para evidenciar possíveis mudanças nos sintomas

- ajustes e manutenção de próteses auditivas, se for o caso

- reforço ou aprofundamento de informações já apresentadas em sessões anteriores

- oferta de novas informações relevantes como, por exemplo, estratégias de comunicação para pacientes com perda auditiva e a relação (ou não) entre outras condições de saúde identificadas no paciente e o zumbido

- facilitação da percepção de autoeficácia do paciente

A oferta de textos e figuras relacionados aos temas discutidos nas sessões de aconselhamento pode ajudar o paciente a lembrar mais tarde das informações apresentadas. A participação de membros da família nas sessões de aconselhamento também pode ser de grande ajuda, especialmente no caso de pacientes idosos e de crianças e adolescentes.

Keila Alessandra Baraldi Knobel. Fonoaudióloga, Pós-Doutora pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas. www.keilaknobel.com.br

Referências

1. Coles, R. R. A. . & Hallam, R. S. Tinnitus and its management. Br. Med. Bull. 43, 983–998 (1987).

2. Hallam S.; Hinchcliffe, R., R. S. . R. Psycological aspects of tinnitus. in Contributions to medical psycology (ed. Rachman, S.) 3, 31–53 (Pergamon Press, 1984).

3. Jastreboff, P. J. J. Phantom auditory perception (tinnitus): mechanisms of generation and perception. Neurosci. Res. 8, 221–254 (1990).

4. Jastreboff, P. J. & Hazell, J. W. A neurophysiological approach to tinnitus: clinical implications. Br. J. Audiol. 27, 7–17 (1993).

5. Mayford, M., Kandel, E. R. & Diego, S. Genetic approaches to memory storage. 9525, 463–470 (1999).

6. Searchfield, G. D., Kaur, M. & Martin, W. H. Hearing aids as an adjunct to counseling: Tinnitus patients who choose amplification do better than those that don’t. Int J Audiol 49, 574-579 (2010).

7. Tyler, R. S., Noble, W., Coelho, C. B. & Ji, H. Tinnitus retraining therapy: mixing point and total masking are equally effective. Ear Hear. 33, 588–94 (2012).

8. Henry, J. a. et al. Randomized clinical trial: Group counseling based on tinnitus retraining therapy. J. Rehabil. Res. Dev. 44, 21 (2007).

9. Campuzano, M. L. R & Rodríguez, J. L. S. Entrenamiento en habbilidades terapéuticas: algunas consideraciones. Enseñanza e Investig. en Psicol. [on-line] 16, (2011).