Cão incrementa intervenções fonoaudiológicas com idosos

Cortesia: Glicia Ribeiro de Oliveira

Catalogado como “melhor amigo do homem”, Canis lupus familiaris – o cachorro – ocupa espaço central na literatura que estuda as Intervenções e as Atividades Assistidas por Animais (IAA/AAA), isto é, a incorporação proposital de animais ao tratamento humano. Sabe-se, hoje, que a presença do cachorro beneficia a diminuição dos níveis de cortisol e de adrenalina, melhora o enfrentamento da doença e a qualidade de vida dos pacientes, bem como promove sensação de conforto e bem-estar, entre outros.

Publicado na revista Distúrbios da Comunicação (Dezembro de 2017), um estudo da fonoaudióloga Glícia Ribeiro de Oliveira, desenvolvido para um mestrado, mostra os benefícios que um cão pode trazer nas interações com idosos.

Os atendimentos que deram origem à pesquisa clínico-qualitativa foram realizados entre outubro de 2009 e março de 2010 com nove residentes de uma clínica geriátrica, de ambos os sexos e na faixa etária de 61 a 92 anos. A fonoaudióloga envolveu sua cadela, Nara, da raça poodle, com dois anos e oito meses, e as atividades foram voltadas para o resgate de lembranças passadas do convívio com animais e com as vivências atuais com o cão participante.

As intervenções, que tiveram frequência mensal e duração de 45 minutos durante um período de seis meses, foram analisadas comparando-se a última sessão com a primeira, de acordo com dois critérios: a atividade dialógica e as condutas não verbais e psicossociais.

De modo geral, o estudo evidenciou que a presença do animal facilitou as interações e a melhora nas condutas comunicativas, “promovendo o estabelecimento/fortalecimento dos vínculos interpessoais, permeados pela dialogia”.

No início das AAAs, os idosos demostravam pouco interesse em interagir entre si, mantendo-se em silêncio, cochilando ou assistindo TV. As condutas mudaram ao longo do processo com a intensificação da dialogia, sendo que Nara foi ganhando um papel de possível interlocutora.

Assim, a interação verbal com a fonoaudióloga ou entre eles foi acrescida de discurso indireto, na medida em que falavam com, mas também por Nara. Contavam ou perguntavam algo para Nara e, em seguida, “respondiam” (com variação de entonação) de maneira a se colocarem no lugar dela. Muitas vezes, o tema compartilhado nessas interações eram as habilidades, o carinho e os cuidados com o cão. ”, escreve a fonoaudióloga.

No que tange à caracterização de condutas não verbais, a presença de Nara favoreceu comportamentos de afetividade. “Os idosos acariciavam, beijavam e abraçavam Nara e, a cada encontro, esses gestos intensificavam-se. Ao vê-la chegar à clínica sorriam, tanto para ela quanto para os companheiros, alguns batiam palmas. Nesse contexto, a interação grupal foi significativa e, aos poucos, os idosos foram percebendo as formas de carinho preferidas por Nara e trocavam sugestões sobre as formas mais efetivas de pedir e ganhar carinhos dela. ”, relata Glícia no seu estudo.

A presença da cadela não dinamizou apenas a atividade do grupo de idosos; enfermeiros, auxiliares, cuidadores e funcionários da clínica se interessaram pelas intervenções, “ampliando gradativamente suas interações com os idosos e com a fonoaudióloga pesquisadora e seu cão”.

Algumas sessões foram realizadas sem Nara, o que despertou frustração entre os participantes que reparavam sua ausência, reivindicavam a presença dela, “mandavam recados” para ela, e sempre perguntavam sobre o próximo encontro. De acordo com a pesquisadora, a realização das visitas gera expectativa nos idosos, sendo que a regularidade das AAAs favorece a habilidade de memória deles.

Glícia Ribeiro de Oliveira ainda se aproveita da presença da Nara, agora com 11 anos, em atendimentos esporádicos com idosos. A fonoaudióloga tem dois outros cães treinados para atender outros públicos, Nina (crianças hospitalizadas) e Diana (atendimento na escola).

Atuando na área da Linguagem, a fonoaudióloga começou a prática da AAA ainda na graduação, na PUC-SP, desenvolvendo com colegas um projeto experimental na disciplina de Avaliação de Linguagem. Na PUC-SP, estudos sobre a relação homem-animal vêm sendo desenvolvidos em um Programa de Estudos de Pós-Graduação em Fonoaudiologia desde 2007. O grupo de pesquisas em AAA é coordenado pela Profa. Dra. Maria Claudia Cunha e reúne, atualmente, seis pesquisadores (uma fonoaudióloga, quatro psicólogos e uma pedagoga).

A área da audição também!

Para Glícia Ribeiro de Oliveira, o próximo passo será a conclusão de um doutorado, avaliando AAA em crianças hospitalizadas. Mas o experimento da AAA não deve parar por aí, pois a pesquisadora considera que ela pode ser aplicada em todas as áreas da Fonoaudiologia, e confessa seu grande interesse em desenvolver pesquisas relacionadas à audição. “Acredito que é uma área que podemos explorar e abrir precedentes de pesquisas no Brasil, pois desconheço qualquer iniciativa. Estudos relatam os benefícios positivos da simples presença de um cão em qualquer tipo de atendimento – lembrando que o paciente deve gostar e aceitar o contato com o cão – e, sem dúvidas, podem ser desenvolvidas atividades para os pacientes com o intuito de motivá-los no uso contínuo dos seus aparelhos auditivos e contribuir para sua melhor adaptação”, antecipa Glícia.